Revista do Vestibular da Uerj
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Rio de Janeiro, 11/12/2017
Ano 11, n. 29, 2018
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Artigos

Machado de Assis é mesmo pessimista e niilista?, por Vitor Cei

Ano 9, n. 25, 2016

Autor: Vitor Cei

Sobre o autor: Sobre o autor: Vitor Cei, doutor em Estudos Literários pela UFMG, com PDSE na Freie Universität Berlin, é líder do Grupo de Pesquisa “Ética, Estética e Filosofia da Literatura”, do CNPq, e professor do Departamento de Línguas Vernáculas da Universidade Federal de Rondônia.

Publicado em: 21/10/2016

Muitos leitores de Machado de Assis notam a (suposta) constante presença do pessimismo e do niilismo na obra do escritor. Segundo diversos críticos, suas últimas obras de ficção assumem uma postura desencantada da vida, da sociedade e do homem. Essa interpretação aparece na bibliografia especializada, em manuais didáticos e até mesmo na Wikipédia.

Com razão, o pesquisador francês Jean-Michel Massa, no livro “A juventude de Machado de Assis”, constatou que “descobriu-se o pessimismo do escritor, seu ceticismo, seu niilismo. Os ataques surgiram de todos os lados. Joaquim Maria Machado de Assis, um novo Sócrates, passou a ser um mestre da perversão e sua obra, uma escola da corrupção”.

Sílvio Romero, rival do Bruxo do Cosme Velho, talvez seja o responsável por colar essa pecha de pessimista ao nosso escritor. Em seu livro de 1897, intitulado “Machado de Assis”, o crítico sergipano afirmou que o escritor é “um representante do espírito brasileiro, mas num momento mórbido, indeciso, anuviado, e por um modo incompleto, indireto, e como que a medo”, marcado pelo “niilismo materialístico, desbragado e sandeu tão em moda entre os tolos de todos os feitios”.

O capítulo final de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – onde podemos ler a famosa frase “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” – seria exemplo cabal do pessimismo do autor, ou do seu niilismo. Se o discurso final do defunto autor Brás Cubas for tomado a sério, é possível considerá-lo uma negação sistemática de todos os valores que prendem o homem à vida em sociedade — uma vontade de nada. O orgulho de não ter tido filhos, de não ter propiciado a alguém a maior ventura dada aos mortais — viver — o colocaria na perspectiva de que o melhor seria não ter nascido. O irônico é que, no ato mesmo de negar a vida, o defunto autor a afirma, com a criação de uma obra autobiográfica.

O problema é que muitos críticos não percebem essa ironia. Eles leem “Brás Cubas” mas entendem “Machado de Assis”, sem perceber que o niilismo do narrador é submetido à pena da galhofa do autor. Ou ainda: se alguns narradores e personagens são niilistas, o escritor não necessariamente o é, e ironiza esse niilismo.

No meu livro “A voluptuosidade do nada: niilismo e galhofa em Machado de Assis”, recém-publicado pela Editora Annablume, além de chamar a atenção para a escassez da literatura secundária a respeito da questão, eu ofereço tal documentação, mostrando os sentidos que o niilismo assume ao longo da obra machadiana: ora designa a condição humana, ora a feição pessoal dos narradores ou personagens, ora uma característica da sociedade brasileira, sempre com a pena da galhofa.

Assim, ofereço uma interpretação divergente, contrariando a opinião geralmente aceita pela fortuna crítica. Defendo que o niilismo é sim um dos motivos condutores dos romances machadianos, de “Memórias póstumas de Brás Cubas” a “Memorial de Aires” – no entanto, tal niilismo aparece como perspectiva a ser galhofada. Apoiando-me em leituras de filósofos como Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche, eu busco demonstrar o quanto, na realidade, a ficção machadiana se distancia das concepções tradicionais de pessimismo e niilismo, na medida em que as aborda com a pena da galhofa. Se Machado era schopenhaueriano, como se costuma dizer, ele o era na medida em que ironizava a filosofia de Schopenhauer de forma incessante — o que não significa colocar-se contra o pensamento do filósofo. O que ocorre é o deslocamento dos conceitos filosóficos, que deixam de ser o que eram ao saírem de seu contexto sistemático de pensamento, e passam a ser algo ambíguo e bifronte, ao serem reescritos com a pena da galhofa.

As ações e inações dos protagonistas de Machado — Brás, Rubião, Palha, Bento, Pedro, Paulo, Flora e Aires, que se esgarçam sem rumo e sem avanço efetivo — se prestam ao realce do fenômeno do niilismo. A literatura machadiana, ao tornar o niilismo visível, levanta a possibilidade de não aceitá-lo sem resistência.

Diante do abismo, isto é, frente ao problema do niilismo, Machado coloca como narradores as vozes que serão ironizadas. Os narradores Brás Cubas, Bento Santiago e José da Costa Marcondes Aires conservam uma atitude ambígua. Tendo em vista a duplicidade constitutiva do niilismo (sintoma de decadência e, ao mesmo tempo, de potência ampliada), pode-se afirmar que o trio é e não é niilista.

De uma determinada perspectiva, é possível verificar que a vontade de nada e o ressentimento em relação ao passado são consequências da impossibilidade de criar novos valores, sentidos e possibilidades de viver. O defunto autor, o casmurro e o conselheiro tematizam, ironicamente, a relação entre criação, esterilidade e ruína.

Diante da impossibilidade de recuperar o tempo perdido — pois o tempo é ministro da morte e arquiteto de ruínas —, a nostalgia desses narradores de si mescla o passado com o presente e desloca qualquer sentido de futuro. Ao revolverem o passado, os memorialistas expressam falta de plenitude, sentimento de abandono e um espírito de vingança contra o tempo. Nesse sentido, os três memoriais são apenas reações aos respectivos sentimentos de perda, não gestos ativos de resistência.

Por outro ponto de vista, entretanto, existe em Cubas, Santiago e Aires uma inclinação para intervir na construção da história da própria vida que os define como afirmadores — mesmo que neguem. Todos eles usam a escrita como uma forma de organizar a falta de sentido. Assim, eles encontram na narrativa dos papéis que escolhem representar — defunto autor, escritor casmurro, diarista solitário — ocasião para a conversão de suas experiências em arte. Nessa afirmação da condição de artistas, criadores de valores, eles não são niilistas.

Os grandes romances machadianos, ao revelarem diferentes possibilidades de interpretação do problema do niilismo — voluptuosidade do nada (“Memórias póstumas de Brás Cubas”), arquitetura de ruínas (“Quincas Borba”), ressentimento (“Dom Casmurro”), filosofia das tabuletas (“Esaú e Jacó”) e ascetismo gamenho (“Memorial de Aires”) —, levando-as às últimas consequências e apresentando-as como perspectivas a serem galhofadas (matando o niilismo, desse modo, pelo ridículo), oferecem uma possibilidade de resistência ao niilismo.

Machado de Assis sabia que a resistência ao niilismo não constitui um estado final que possa ser atingido de uma vez por todas, mas é objeto de uma atividade permanente. A rigor, não é nem mesmo um estado fundado ontológica ou fisiologicamente, mas uma perspectiva, porque a figura do niilista não pressupõe uma essência prévia ou posição estática: somos niilistas toda vez que lamentamos a ausência de sentido do mundo; somos antiniilistas toda vez que somos capazes de atravessar o niilismo, criar valores e desenvolver formas de vida em que se verifique uma plena afirmação da imanência.

Não contente em ironizar o niilismo e o pessimismo com seus personagens e metáforas, Machado de Assis o combateu explicitamente em artigos, crônicas e correspondências. Já em 1878, sob o pseudônimo Eleazar, o cronista afirmou que “estamos longe da anemia e da debilidade que nos atribui o pessimismo de alguns misantropos”. No ensaio “A Nova Geração”, publicado no ano seguinte, Machado de Assis afirmou, de maneira mais categórica ainda: “a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada”. Em 1903, o idoso escritor escreveu o seguinte, em carta ao amigo Salvador de Mendonça: “Eu, apesar do pessimismo que me atribuem, e talvez seja verdadeiro, faço às vezes mais justiça à Natureza do que ela a nós”.

Segundo Gustavo Bernardo, em sua coluna aqui na Revista do Vestibular da UERJ, as últimas palavras de Machado, ao morrer com quase 70 anos de idade, foram: “a vida é boa”. O colunista completa: “Enquanto viveu, não se conformou com a tal da realidade, mas também não ficou reclamando pelos cantos nem fazendo denúncias pretensamente indignadas como se fosse o dono da verdade”.

Concluo que a prosa machadiana sobre o niilismo é original e crítica porque se apropria dos cânones da filosofia e da literatura com irreverência, rearranjando elementos preexistentes nas obras de seus precursores. Por isso, as tradições de estudos literários e filosóficos sobre o niilismo têm muito a conversar, senão mesmo a aprender, com Machado de Assis.

 

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