Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 16/12/2018
Ano 11, n. 30, 2018
ISSN 1984-1604

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Artigos

Série Carreiras: Letras, por Victor Hugo Adler Pereira

Ano 9, n. 25, 2016

Autor: Victor Hugo Adler Pereira

Sobre o autor: Victor Hugo Adler Pereira é professor-adjunto de Teoria da Literatura do Instituto de Letras da UERJ, desde 1995, onde coordena o Doutorado em Literatura Comparada. Pesquisador bolsista do Programa Pró-Ciência UERJ/FAPERJ. Entre outros trabalhos, publicou os livros: Musa Carrancuda: Teatro e poder no Estado Novo (FGV) e Nelson Rodrigues e a obs-cena contemporânea (EDUERJ).

Publicado em: 07/11/2016

Revista do Vestibular: O senhor coordena um programa de extensão universitária chamado LerUERJ. De acordo com a página do programa na internet, seu principal objetivo é participar, pelo estímulo à leitura, no desenvolvimento da capacidade dos indivíduos para o exercício de uma cidadania plena. Fale um pouco sobre o LerUERJ.

Victor Hugo: Em nossas atividades atuais, priorizamos estimular junto aos diferentes públicos-alvo perspectivas de leitura como diálogo entre diferentes modos de compreensão do mundo, portanto um instrumento de ampliação das experiências individuais e abertura para relações mais ricas com a sua comunidade e sua época histórica. É assim que concebemos o chamado “exercício da cidadania”: uma inserção crítica na sua época, a procura de intervir em seu meio social, de não ser um receptor passivo de mensagens e comandos das agências de poder e disciplina, mas de procurar situar-se diante do que se apresenta como norma, exigência ou moda.

Pensando criticamente numa mitificação de que somente distribuir livros pode resolver todos os problemas da sociedade atual, diante de indivíduos anestesiados por uma pedagogia da submissão, mudamos algumas linhas de condução sobre o que eram práticas corriqueiras de difusão da leitura no Brasil. Certo tipo de leitura não vale por si só, pode ser também alienante, colocar o indivíduo numa camisa-de-força de valores autoritários ou limitadores. Considero que é necessário retomarmos perspectivas sobre a cultura e a educação de grandes educadores brasileiros, como Paulo Freire, que viam o acesso aos bens culturais como meio para a emancipação dos indivíduos, e que contribuíram com experiências das mais ricas e transformadoras, influentes em várias partes do mundo.

O LerUERJ tinha como tradição promover atividades de leitura baseadas em um contato diferenciado do estudo escolar ou acadêmico das obras. Eram os chamados “círculos de leitura” ou “rodas de leitura”. Essa prática é interessante porque ajuda a divulgar livros e autores e também promove uma relação menos controlada com a leitura, motivando o leitor a procurar o “seu” interesse, as “suas” questões no livro. Não abandonamos, por completo, esse tipo de reunião, realizando círculos na universidade e em outros espaços. Penso, no entanto, que, diante das carências do sistema educacional público e também do privado – dedicado a “adestrar” mão-de-obra para o mercado –, há necessidade de promover práticas mais sistemáticas para colaborar na formação de indivíduos com mais largos horizontes. Desde que assumi o programa, há mais de seis anos, temos realizado atividades que procuram fazer algum trabalho mais sistemático para desenvolver as possibilidades dos indivíduos “lerem” o mundo de um modo mais rico, ou seja, explorando mais possibilidades de interpretar os códigos sociais e os textos em diferentes linguagens, o texto escrito, o filme ficcional, o documentário...

Passamos também a dar maior importância ao uso dos meios de comunicação para essas finalidades e a procurar desenvolver nossa capacidade de explorar as potencialidades do rádio, principalmente pelo acesso à rádio WEB-UERJ, e até mesmo da televisão, com a TV Universitária, nesse sentido.

Revista do Vestibular: O LerUERJ tem atividades voltadas para o ensino médio?

Victor Hugo: Já organizamos projetos mais diretamente ligados ao desenvolvimento de adolescentes, procurando estabelecer, por meio dessa ampliação dos horizontes da leitura, pontes entre os saberes escolares, as experiências individuais e comunitárias e o conhecimento difundido na universidade. Trabalhamos com adolescentes e jovens de uma companhia de dança e teatro situada no Andaraí. Fizemos outros trabalhos análogos em um projeto social. Depois, passamos dois anos atuando com os adolescentes no Hospital Pedro Ernesto, num setor em que estão internados somente pacientes dessa faixa etária e, por isso, há uma quebra do contato com as obrigações formais de estudo e de leitura. Atualmente, estamos organizando um projeto mais amplo, que incluirá estágios de estudantes de Letras, com participação em experiências de difusão da leitura ou de ampliação das práticas relativas a essa em parceria com centros culturais de bairro.

Revista do Vestibular: A maioria das pessoas relaciona o curso de Letras somente à licenciatura, ou seja, à atividade docente. Em que outras áreas o profissional de letras pode atuar?

Victor Hugo: O estudante de Letras, desde que cursei a graduação em Português-Literaturas, nos anos 70, já tinha funções garantidas nos jornais e editoras, como revisor e copidesque (corretor de textos). A tradução era e ainda é um campo profissional que, cada vez mais, tem sido contemplado em programas e currículos de graduação ou em especializações em Letras. Uma outra função que algumas vezes é exercida por estudantes de Letras e outras vezes por profissionais da área de Comunicação é a de redator, em editoras e nos meios de comunicação.

Revista do Vestibular: Fale sobre a sua experiência. O que o levou a essa profissão?

Victor Hugo: Pois é. Gosto de contar a meus alunos de Letras, para mostrar os caminhos variados que nossa área pode oferecer, o que aconteceu comigo. Eu cursava as faculdades de Direito e de Letras ao mesmo tempo – como muitos colegas faziam naquela época. A faculdade de Letras da UFRJ estava passando por uma grande crise, em função da repressão policial dentro da própria universidade e da desorganização total ligada a perseguições a professores e à intenção de desestimular essa área de estudos. Larguei a faculdade no fim do primeiro ano e continuei a cursar Direito. Até que, no 3º ano deste curso, concluí que não desejava ser um profissional dessa área. Fiz um curso de tradução no MEC e voltei a ficar completamente apaixonado pelos estudos de literatura. Voltei a cursar Letras, com intenção de me tornar tradutor, e comecei a trabalhar em editoras, como revisor e auxiliar de editoração. Nunca pensava em ser professor. Aí vem a parte surpreendente: somente porque o mercado editorial começou a entrar em crise, no meio dos anos 70, decidi dar aula, pensando em “ganhar algum dinheiro” para continuar estudando... No primeiro dia em que dei aula para uma turma de 7ª série em um colégio pequeno da Zona Norte do Rio, vi que tinha “caído numa armadilha” que mudou a minha vida... Gostei tanto que percebi que ia querer continuar dando aulas pelo menos por muito tempo... Durante aquele ano, os colegas de faculdade que já atuavam nos cursinhos preparatórios para o vestibular começaram a me chamar para pegar uma turma ou outra... Até que, no fim daquele ano, eu já me considerava um professor e estudava que nem doido para “dar conta do recado”, pela convicção de que tinha que exercer bem aquela função (vejo hoje que reconheci, de imediato, o valor e a importância daquele trabalho, assumido inicialmente pela necessidade de ganhar dinheiro, como não tenho vergonha alguma de contar...).

Revista do Vestibular: O que o faz ter orgulho de sua profissão?

Victor Hugo: Tenho muito orgulho sim de ser professor! Considero que exercemos funções que vão muito além das atividades na sala de aula ou nas instituições de ensino. Por isso, nunca me furto a aparecer, falar, fazer roteiros, quando um meio de comunicação ou um centro cultural me procura. Temos a responsabilidade por divulgar as aquisições das culturas, que vêm de épocas remotas, somos uma espécie de correia de transmissão histórica... E também temos a responsabilidade de colocar em xeque o papel que essas idéias e as diferentes obras do passado e do presente exercem na vida social e sobre os indivíduos.  Por isso, precisamos estudar muito e nos atualizar o tempo todo com humildade... Será pouco? Por mais restrito que seja o seu âmbito de atuação, o/a professor/a em cada dia de seu trabalho está fazendo isso (queira ou não... bem ou mal feito...). Ele ou ela são referências comunitárias nesse sentido: supõe-se que tenham algo a ensinar ou a dizer, mesmo que apenas num campo restrito do conhecimento, para todos/todas e cada um/uma à sua volta. Essa é uma forma de poder (por que não?) que nos foi delegada e deve ser exercida, com responsabilidade, e, além disso, muito carinho e compreensão por nossas próprias limitações e pelas dos que nos cercam.

Revista do Vestibular: Quais as maiores dificuldades que o jovem graduado em Letras vai enfrentar na vida profissional? E as maiores alegrias?

Victor Hugo: Desde que comecei a cursar a graduação em Letras, passando pelas experiências com colegas de trabalho em todos os níveis de ensino, durante meus mais de trinta anos de magistério, e até o convívio atual com meus alunos de graduação e pós-graduação, tenho mantido mais ou menos a mesma perspectiva na avaliação do perfil do estudante e do profissional de Letras. Sofremos de um perigo no Brasil: o de sermos subestimados ou de, nós próprios, mantermos uma baixa auto-estima. Muitas vezes não consideramos suficientemente a riqueza que pode advir de conhecermos uma língua, suas relações com a cultura, com o pensamento, a criação artística com a palavra e os desafios de que já foi capaz – criando novas perspectivas sobre a vida. Já a possibilidade de entender o que está em jogo na construção de nossa própria língua deveria ser motivo de respeito pela área de estudos a que nos dedicamos! Difícil é conseguirmos respeitar a nós mesmos, dedicando-nos com seriedade aos estudos e ao trabalho, reconhecendo seu alcance transformador, o poder de provocar os estudantes e a comunidade em que atuamos ao pensamento.

As alegrias vêm de compartilhar o conhecimento com nossos alunos. Desde jovem, quando comecei a dar aulas, me pegava todo feliz e até emocionado, diante de algumas evidências surgidas pela palavra de estudantes ou em seus trabalhos, de que havia desencadeado novas perguntas e perplexidades, aberto novas portas para o autoconhecimento ou para a indagação sobre o mundo. Pergunte a quem gosta de dar aula se às vezes não sai dizendo “mandei bem” – que nitidamente não é pela vaidade de “ser o bom”, mas porque conseguiu formular bem o que desejava passar, porque sentiu que deixou numa turma algo que promete frutificar... Alguma coisa que vai além de nós e que soubemos articular com quem vem depois... É isso que ultrapassa – em ganho, em uma espécie de pagamento simbólico – o pouco que, muitas vezes, se ganha como professor... E que muitos (sabedores dessas nossas alegrias) aproveitam para explorar economicamente...

Revista do Vestibular: Gostaríamos que o senhor deixasse uma mensagem para os candidatos do Vestibular Estadual 2009 que desejam cursar Letras.

Victor Hugo: Talvez seja uma modalidade da vaidade o desejo de ter passado pela vida deixando alguma marca, ou simplesmente a humildade feliz de saber que pudemos, com eficiência, juntar mais elos a alguma corrente, que consideramos positiva, construtiva, e que circula desde muito longe na história das culturas... Pode ser também a consciência (ou a pretensão?) de que, apesar de estarmos todos fadados à morte, é através de cada um de nós que podem sobreviver forças que nos superam em grandeza, lucidez ou beleza.

Muitos alunos nossos se nutrem das humildes migalhas que pudemos fornecer e fazem delas algo muito maior do que pudemos fazer!

Procurem manter essa pretensão viva, nos estudos e na profissão. Fujam dos apelos à acomodação e à mediocridade. Nossas pretensões precisam ser maiores.  Não construímos foguetes ou viadutos, e não somos ratos por isso. Com a matéria dos sonhos e o amálgama das palavras, somos construtores do futuro.

 

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