Revista do Vestibular da Uerj
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Rio de Janeiro, 22/06/2018
Ano 11, n. 30, 2018
ISSN 1984-1604

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Artigos

Série carreiras: Matemática, por Carlos Antonio de Moura

Ano 9, n. 25, 2016

Autor: Carlos Antonio de Moura

Sobre o autor: Carlos Antonio de Moura é professor titular aposentado do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IME-UERJ). Trabalhou em várias instituições nacionais e estrangeiras, tendo sido um dos fundadores do Laboratório Nacional de Computação Científica. Atualmente, é pesquisador visitante dos Programas de Pós-graduação em Ciências Computacionais e em Engenharia Mecânica da UERJ. Ao longo de sua carreira, recebeu prêmios, bolsas e homenagens, tendo ainda coordenado vários projetos de pesquisa.

Publicado em: 07/11/2016

REVISTA DO VESTIBULAR: O senhor possui uma experiência profissional bastante extensa e diversa. Neste momento, é pesquisador visitante dos Programas de Pós-graduação em Ciências Computacionais e em Engenharia Mecânica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mas já trabalhou em outras instituições nacionais, como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, e estrangeiras, como o Collège de France. Conte-nos um pouco sobre essa trajetória e, em especial, sobre sua escolha pela formação em Matemática.

 CARLOS ANTONIO DE MOURA: Seria mais poético contar que entre mim e a Matemática rolou amor à primeira vista. Mas o que ocorreu de fato foi um envolvimento gradual a partir de um conhecimento cada vez mais desafiador. Quando concluí o bacharelado, aqui no Rio de Janeiro, apesar de ainda aluno da Universidade de Brasília – a qual tinha vivido uma crise que quase a destruiu, no segundo semestre de 1965 –, o mestrado no IMPA, o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, era o caminho natural, mas também um pouco ameaçador. Seguiu-se a ele o doutorado no Courant Institute da New York University, onde eu perseguia o treinamento em Matemática Aplicada, vertente com quase nenhum seguidor naquela época, por estas bandas. De volta, no CBPF, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, trabalhei no projeto da criação do Laboratório Nacional de Computação Científica, que se chamava LAC – Laboratório de Cálculo. Foi lá que iniciei diversas colaborações com pesquisadores do país e do exterior, como Venezuela, Chicago, Nantes, Paris, por exemplo. Essas interações, por meio de congressos, estágios e projetos bilaterais de visitas, se tornam indispensáveis para o desenvolvimento de pesquisas em tópicos relevantes. Mas nossa atuação não está restrita a pesquisa e aula. Os órgãos representativos de diferentes setores da comunidade requerem nossa participação. Participei da fundação de três sociedades: a Associação Brasileira de Editores Científicos, a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional e a Sociedade Brasileira de Matemática. Nas duas primeiras fui conselheiro e membro de diretorias. Em relação à primeira, destaco que a atividade de editoração demanda nossa experiência, quer como editor, quer como avaliador, pois a qualidade dos periódicos científicos se firma a partir da “avaliação dos pares”. Projetos de desenvolvimento tecnológico também são outra fonte de envolvimento. Quando iniciei minha carreira, essa era uma possibilidade na qual acreditávamos e que queríamos disseminar. Atuei em um dos primeiros projetos da Petrobras junto com o meio acadêmico e em outro, com a Comissão de Energia Nuclear, nos anos 1970 e 1980. Hoje projetos desse tipo são muito comuns, sendo mesmo raras as Instituições de Ensino Superior que não possuam ao menos meia dúzia deles.

  

REVISTA DO VESTIBULAR: O senhor é um dos fundadores do Laboratório Nacional de Computação Científica, que recebeu recentemente o maior computador da América Latina. Qual a influência desse Laboratório sobre a pesquisa tecnológica feita no país?

CARLOS ANTONIO DE MOURA:   O LNCC, sendo um instituto nacional do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, tem um objetivo que necessita transcender àqueles dos seus pesquisadores. Precisa direcionar-se para as demandas científicas e tecnológicas do país, não só no momento atual, mas antenando-se às que nos aguardam em uma janela do futuro. Sua história tem sido coerente com essa proposta. Desde os primeiros anos, mantém suas Escolas de Matemática Aplicada, tendo introduzido a cultura da rede ainda nos tempos do bitnet (o correio eletrônico no final dos anos 1980); na mesma época, propiciou a interação com o ACP, computador paralelo pioneiro, implantado pelo CBPF. Posteriormente, sua atuação foi se diversificando, passando a realizar investimentos ligados à previsão do tempo, ao monitoramento da probabilidade de catástrofes ambientais, aos estudos genéticos e aos modelos matemáticos tanto para a medicina quanto para a detecção e recuperação de reservatórios de petróleo.

   

REVISTA DO VESTIBULAR:  A Revista Eletrônica do Vestibular é um periódico voltado para estudantes e professores do ensino médio. Sabe-se que a Matemática é uma das disciplinas à qual os estudantes atribuem, em geral, grande nível de dificuldade. Qual sua opinião sobre ensino/aprendizagem de Matemática?

CARLOS ANTONIO DE MOURA: Cursei a graduação em Matemática nos primeiros anos da Universidade de Brasília. Ali aprendi que as disciplinas iniciais em qualquer curso precisam estar sob a responsabilidade dos professores mais experientes. Ainda hoje me lembro de questões formuladas em testes do curso de Mecânica que segui, ministrado pelo Professor Roberto Salmeron, o principal docente do Departamento de Física na época. No período em que pertenci ao quadro permanente do Instituto de Matemática e Estatística da UERJ, como professor titular, optei pelas aulas para os nossos calouros, na disciplina Matemática Discreta. A principal mensagem que tentava lhes transmitir era que o objetivo do estudo da Matemática não é absolutamente memorizar técnicas, macetes, caminhos para chegar à resposta, às vezes um mero número. Buscamos, isso sim, encontrar relações entre conceitos ou entes matemáticos, compreender como e por que são válidas determinadas propriedades, conexões. Eu preferia, naquela disciplina, em vez de testes pouco inspiradores, induzir os alunos a irem se habituando a projetos mais longos, e assim conhecer como se faz pesquisa. Não sabiam muitas vezes aonde ia levar o trabalho, e tinham desse modo maior curiosidade em concluí-lo. Esta é a dificuldade no ensino, daí o pavor associado à Matemática, contra o qual lutamos: resume-se à atividade de ensino-aprendizado em cumprir ementas, repetir exposições padronizadas, mas não voltadas para o efetivo público daquela turma, que é sempre particular, individualizado, distinto do de qualquer outra turma, em todos os tempos!

REVISTA DO VESTIBULAR: Quais as maiores dificuldades que o jovem graduado em Matemática vai enfrentar na vida profissional? E quais as maiores alegrias?

CARLOS ANTONIO DE MOURA: Sabe o que penso ser uma grande dificuldade? É muito comum encontrarmos paredes onde não existem. Há compulsão de rotular e, a partir disso, pressão para viver coerentemente com tais rótulos. “O professor ensina, não tem mais que estudar”, “Só quem é pesquisador faz pesquisa”, e vai por aí. Nada disso, o professor precisa aprender continuamente, e cada aula dele tem de ser uma exposição nova, pois aula é diálogo, aprendizado compartilhado. A gente sabe disso, já falou muitas vezes, mas é preciso repetir e defender, defender e repetir. Alegrias são muitas, mas a que considero maior, maior que o reconhecimento expresso, verbalizado pelos alunos quando descrevem nossa contribuição na sua formação, é contemplar aqueles que em determinados caminhos nos ultrapassaram. Aqueles que estão prontos para também nos ensinar o que desconhecemos e eles dominam.                     

REVISTA DO VESTIBULAR: Gostaríamos que o senhor deixasse uma mensagem para os candidatos do Vestibular Estadual que desejam cursar Matemática.

CARLOS ANTONIO DE MOURA: Difícil sintetizar...  Vou escrever algo e depois questionar o que disse, seria isso mesmo que deveria dizer?  Pronto, saiu!  Esta a receita fundamental: questionar sempre. Questionar você e os outros. O que está dito e, principalmente, o que está escrito.  

 

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