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Gustavo Bernardo


Gustavo Bernardo é Doutor em Literatura Comparada, Professor Associado de Teoria da Literatura no Instituto de Letras da UERJ e pesquisador do CNPq. Publicou até hoje vários ensaios, entre eles A Educação pelo Argumento e O Livro da Metaficção, além de outros tantos romances, entre eles A filha do escritor e O gosto do apfelstrudel. Publicou, pela editora Rocco, o livro Conversas com um professor de literatura, contendo 50 crônicas publicadas nesta Revista Eletrônica do Vestibular da UERJ. Acaba de publicar, pela editora Annablume, o ensaio A ficção de Deus. Edita os sites www.gustavobernardo.com, sobre as suas obras, e www.flusserbrasil.com, sobre a obra do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser.

Posso escrever na 1ª pessoa do singular?

Ano 2, n. 3, 2009

O aluno do ensino fundamental e médio reclama de não poder escrever na 1ª pessoa, de não poder usar na redação expressões da sua fala normal como “eu acho que”. Alguns professores de português costumam apresentar a seguinte justificativa para a regra: quem escreve precisa levar seu argumento a conclusões gerais compreensíveis para toda a gente, ou seja, não pode se limitar à sua vivência particular. Se o assunto é “violência urbana”, por exemplo, quem escreve não pode se limitar àquele assalto que a sua irmã sofreu na semana passada. Usando a 1ª pessoa, quem escreve corre o risco de falar mais de si mesmo e menos do tema, o que por sua vez o leva a um registro mais informal da língua, inadequado para situações formais tais como redação escolar e redação de concurso.

Os argumentos são válidos isoladamente, mas não me parecem pertinentes – tanto não me parecem que, como o leitor deve ter observado, eu estou aqui usando a 1ª pessoa e até escrevendo “eu”. É válido afirmar para o aprendiz que sua redação deve chegar a conclusões gerais, que ele deve falar do tema ao invés de fazer confissões pessoais, e que ele deve procurar ser formal como se estivesse se candidatando a um emprego, e não informal como se estivesse conversando com um colega ou escrevendo num chat de bate-papo.

Se tudo isso é válido, por que não seria pertinente? Porque uma coisa não se deduz da outra: eu posso restringir-me ao tema sem fugir dele para dar detalhes da minha vida, posso levar meu argumento a conclusões bem gerais, posso manter a formalidade adequada e ainda assim escrever na 1ª pessoa do singular. Se observarmos artigos assinados de jornal e ensaios acadêmicos contemporâneos, veremos que é absolutamente corrente esse uso, mostrando-se mesmo de melhor leitura do que aqueles que optam pelo anacrônico plural majestático, afirmando que “nós pensamos” quando apenas uma pessoa está formulando aquelas ideias.

A restrição da escola se torna mais grave quando, a pretexto de evitar que fique rodando à volta do próprio umbigo, alerta-se o aluno de que ele não deve emitir “opiniões pessoais”. Como não fazê-lo, se o gênero de escrita predominante na escola é o dissertativo e a dissertação se define como “a defesa de uma opinião”? O que o aluno e toda a gente têm de aprender é a defender bem suas próprias opiniões. Inibir o uso da 1ª pessoa antes atrapalha do que ajuda a atender a este objetivo.

Claro está que, se o aluno começa a redação com “eu acho que”, lhe empresta um tom de informalidade um pouco perigoso no contexto em que escreve: ele será lido por pessoas mais velhas para avaliá-lo, muito mais do que por prazer ou para se informarem. No entanto, a substituição por “parece-me” já me parece (vejam só) adequada e suficiente. Do mesmo modo, se o aluno escreve “eu acho que” ou até “me parece” a cada duas linhas, ele força uma recepção negativa por parte do leitor, passando a impressão de que, ao contrário de ter “achado” alguma coisa, se encontra na verdade bastante perdido.

Logo, a preocupação dos professores de redação e das outras disciplinas com o uso da 1ª pessoa do singular tem fundamentos válidos, mas se exagerada provoca efeito contrário ao desejado: não apenas não ensina a escrever e argumentar melhor como ainda atrapalha, bloqueando a formação de opiniões próprias que sejam ao mesmo tempo bem pensadas e bem articuladas – objetivo maior de qualquer educação que se preze.

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ISSN 1984-1604

Ano 7, n. 20, 2014

Rio de Janeiro, 26/10/2014

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