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Gustavo Bernardo


Gustavo Bernardo é Doutor em Literatura Comparada, Professor Associado de Teoria da Literatura no Instituto de Letras da UERJ e pesquisador do CNPq. Publicou até hoje vários ensaios, entre eles A Educação pelo Argumento e O Livro da Metaficção, além de outros tantos romances, entre eles A filha do escritor e Monte Verità. Acaba de publicar, pela editora Rocco, o livro Conversas com um professor de literatura, contendo 50 crônicas publicadas nesta Revista Eletrônica do Vestibular da UERJ.

Por que a verossimilhança é melhor do que a verdade?

Ano 3, n. 9, 2010

Há milênios, Aristóteles afirmava: é melhor o verossímil que convença à verdade que não convença.

A tese aristotélica é bem demonstrada no curta-metragem “Mentira”, de Flávia Moraes, realizado em 1989 a partir de um conto de Luís Fernando Veríssimo.

Um marido pacato volta para casa do trabalho, mas demora mais do que o previsto no engarrafamento. Para piorar, o pneu do carro fura. Ele o troca com dificuldade. Quando acaba de pôr o pneu furado e o macaco na mala, sua aliança de casado escorre do dedo, rola pelo asfalto e mergulha no bueiro. E agora: o que ele vai dizer em casa?

Imagina-se dizendo toda a verdade, mas visualiza a mulher chorando e gritando que só uma mulher muito burra acreditaria naquela história, que é mentira, que na verdade ele perdeu a aliança no carpete felpudo do motel onde se divertia com a amante!

Não. A verdade não convence.

Quando chega em casa, o homem não diz nada, esperando a mulher perceber a falta da aliança. No jantar, a mulher de fato pergunta o que aconteceu com a aliança. Ele responde que não vai mentir: perdeu-a no carpete felpudo do motel onde estava com a amante e por isso mesmo vai entender se ela achar que o casamento acabou.

A mulher sai em silêncio da sala, segurando o choro. Depois de uma meia hora, ela retorna, calma, contida, embora com os olhos vermelhos, dizendo em voz baixa que o casamento deles está passando por uma crise, mas os dois juntos têm como superá-la, se quiserem muito. Então, com medo, ela lhe pergunta se ele quer; ele responde que “sim, claro, meu bem” e daí eles se abraçam.

The end, ou melhor: a happy end.

Alfred Hitchcock demonstrou a mesma ideia no filme “Os 39 degraus”, de 1935.

O herói pretende fugir de alguns bandidos disfarçado de leiteiro. Procura convencer o leiteiro verdadeiro a trocar de roupa com ele, mas conta a verdade: viu uma mulher ser assassinada no escritório por bandidos internacionais, essa mulher era uma espiã, os assassinos o estão perseguindo. O leiteiro não acredita em nada e não se dispõe a ajudá-lo.

O herói então muda a história, admitindo que mentiu: na verdade tivera uma aventura amorosa com uma bela mulher no seu escritório, mas agora precisa se esconder do marido dela: ele o espera, armado, do lado de fora. O leiteiro dá uma gargalhada e exclama: “homem, por que não disse antes? Agora entendo tudo!”. Imediatamente tira sua roupa de trabalho e a entrega ao outro, contente de poder ser solidário naquela situação.

A esposa – que não foi enganada, mas acha que foi – e o leiteiro – que foi enganado, mas acha que não foi – representam o espectador e o leitor, que não querem a verdade mas sim o verossímil. A verdade tem o mau hábito de parecer inverossímil, isto é, de não parecer verdadeira.

A solução cabe bem à arte poética, mas pode gerar uma reação indignada naquelas pessoas que prezam muito a sinceridade: então é melhor mentir do que dizer a verdade?

A indignação não é boa conselheira, ela costuma simplificar demais os problemas: tudo se torna ou certo ou errado, ou verdade ou mentira, ou realidade ou ficção, quando a realidade mesma é muito mais complicada – por exemplo, nossa ficção sempre parte da realidade, nossa realidade é sempre construída por inúmeras ficções.

De fato, a verossimilhança não é igual à verdade, mas também não é igual à mentira. A verossimilhança se assemelha à verdade mas não se confunde com ela, representando antes a vontade da verdade do que a verdade mesma. Como já dissemos em outra crônica, nunca temos acesso à verdade completa, logo, a verdade é sempre não-toda. Entretanto, o fato de não termos acesso pleno à verdade não diminui a nossa vontade de sermos verdadeiros e a intensidade da nossa busca pela verdade.

A verdade mais importante daquele marido não era “perdi a aliança no bueiro”, mas sim: “eu não quero perder a minha mulher”. Certo de que a verdade não funcionaria, ele inventa uma história verossímil que, a despeito de envolver uma traição imaginária, funciona, ou seja: salva o seu casamento e até o revigora.

A verdade mais importante do herói de Hitchcock não era a de contar para o leiteiro o crime que testemunhou, mas sim a de arranjar rapidamente um disfarce para escapar dos assassinos. A segunda versão convence o leiteiro de ajudá-lo e ainda o deixa feliz por ser cúmplice de uma aventura masculina.

A superioridade da verossimilhança em relação à verdade pode ser demonstrada por outra via. Todo mundo conhece aquele tipo de pessoa que se gaba de dizer a verdade todo o tempo, doa a quem doer. Ora, se é verdade que essa pessoa só diz a verdade e toda verdade que lhe vem à cabeça, com certeza podemos considerá-la, na melhor das hipóteses, uma pessoa muito grosseira. Quem diz a sua verdade o tempo todo revela simplesmente falta de educação.

Se desejo conviver com as outras pessoas, minha verdade mais profunda tem a ver com esse desejo e não com a minha constatação de que Fulana estaria mais gorda ou mais velha. Logo, um comentário verossímil será aquele que traduza minha verdade profunda, e não um outro que se compreenda como uma ofensa ou uma grosseria.

Por isso, o poeta precisa ser um fingidor, fingindo a dor que deveras sente – como comentaremos na próxima crônica.

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ISSN 1984-1604

Ano 7, n. 20, 2014

Rio de Janeiro, 02/09/2014

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