Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 22/10/2017
Ano 11, n. 29, 2018
ISSN 1984-1604

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Colunas

O camaleão é um fingidor?

Gustavo Bernardo

A mimese é o fundamento da arte, logo, também da ficção. Da palavra derivam os termos “mimetismo” e “mímica”. Como estes são termos mais usados na linguagem corrente do que mimese, podemos partir deles.

Primeiro, do mimetismo.

Na natureza, o mimetismo é a habilidade de alguns seres vivos que lhes permite confundirem-se com o ambiente para melhor escapar de seus predadores. Plantas, insetos, pássaros, répteis e mamíferos recorrem ao mimetismo. O exemplo emblemático é o do camaleão, que altera sua cor para se confundir com o fundo e assim não ser percebido.

Ao invés de teorizar sobre o conceito, prefiro remeter a um desenho animado genial, com três minutos de duração, chamado “The art of survival” – “A arte da sobrevivência”. O desenho, dirigido por Cassidy Curtis, foi realizado em 1998. Podemos encontrá-lo em http://www.youtube.com/watch?v=I3DjVuKMpac.

Vamos contar a sua história. Era uma vez um professor de mimese...

Esse professor é um velho camaleão sentado sobre a árvore onde funciona a escola de camuflagem. Ele mostra aos alunos como ficar da cor de uma folha verde, e depois manda que os alunos façam o mesmo.

Dois alunos obedecem sem problemas, mas o terceiro não consegue fazê-lo: ao invés de se tornar verde para melhor se confundir com a folha, ele fica completamente roxo.

O professor se irrita e mostra um painel no qual um camaleão roxo atrai um gavião. De repente, no segundo seguinte, todos escutam um pio lúgubre: é o gavião!

O mestre esconde o painel e se torna imediatamente verde. Os dois alunos aplicados o imitam, imitando a folha, com sucesso. O camaleão relapso se apavora e tenta acompanhá-los, mas acaba por se tornar amarelo, na certa por causa do medo. Desta maneira, não só não se confunde com a paisagem como dela se destaca, mostrando-se como um alvo fácil.

O que ele pode fazer para não ser comido pelo gavião? Olha para baixo da árvore e vê uma superfície amarela. Pula nela para se proteger. Consegue se camuflar, mas usando o método inverso ao dos seus irmãos: primeiro fica amarelo para depois encontrar uma superfície daquela cor com a qual possa se confundir.

A superfície em que o camaleão atrapalhado se joga é o teto de um ônibus escolar, daqueles bem típicos nos Estados Unidos, bem amarelo – o que não deixa de ser uma ironia interessante, já que ele se encontrava numa escola de camuflagem. O ônibus se movimenta e o leva para a cidade. Quando chega na cidade, o réptil salta do teto do ônibus e cai na calçada.

Um homem o encontra e, estranhando sua cor amarela, faz menção de pegá-lo. O bicho tenta se camuflar mas só consegue adquirir uma outra cor, mais berrante ainda. O homem, impressionado, o pega na mão e o leva para a sua casa, na verdade um ateliê: ele é um pintor de quadros.

No ateliê, o pintor coloca o camaleão berrante sobre uma mesa de madeira com muitas manchas de tinta, bem ao lado de um estilete cravado na madeira. O pequeno animal, assustado com o estilete, faz novo esforço para se camuflar, mas dessa vez fica com a pele azul e branca. O pintor, admirado com a nova padronagem, começa a pintá-lo.

Corta para a cena seguinte. O pintor, com o camaleão coloridíssimo no ombro, comemora a exposição das suas pinturas. Todas as pinturas têm o seu novo bichinho de estimação como tema. Nos quadros, o camaleão feliz faz o contrário do que ensinava o seu velho professor: ele se destaca do fundo e mostra-se exuberante. Torna-se ele mesmo um “pop star”.

Fim da história e começo da nossa reflexão.

Para sobreviver camaleões se mimetizam com o ambiente e desse modo fingem que não são camaleões e que nem existem. Os camaleões inspiraram parte das teorias da ficção, aquelas que se denominam “realistas”, segundo as quais a obra deve representar tão bem a realidade que com ela se confunda. Uma natureza-morta, por exemplo, deve levar o espectador a tentar pegar a maçã para comer.

O velho professor-camaleão, do início do desenho animado, representa exatamente os defensores do realismo. O escritor realista deve fingir que não existe, ou seja, que não faz literatura, assim como o camaleão obediente deve fingir que não existe para poder continuar existindo.

O leitor realista, por sua vez, deve fingir que não lê ficção mas sim “a verdade”. Este leitor, quando gosta de um texto ficcional, costuma justificar sua apreciação dizendo que o texto tem “tudo a ver com a realidade” ou então “tudo a ver comigo”. Ou seja, o texto é bom ou porque é “real”, e não por ser ficcional, ou porque espelha o leitor, como se o escritor o conhecesse intimamente. Este tipo de leitor, apesar de ser “ligeiramente” narcisista, necessita visceralmente de ficção, mas não a aguenta – ou seja, precisa inventar a ficção de que a ficção não é ficção...

Por que não suportamos a ficção de que tanto precisamos? Pela razão muito simples de que ela ressalta a irrealidade da realidade, ou melhor, as incertezas da nossa percepção da realidade. Quem tem muita dificuldade de conviver com a incerteza sente medo de ficção – logo, prefere aquela ficção que finge que não o é, aquela que se pretende “realista”.

O nosso camaleão berrante, porém, sobreviveu fazendo o contrário do que mandava o seu velho professor. Ao invés de se confundir com o ambiente, ele se destacou do ambiente até se tornar um “pop star”. O camaleão berrante representa uma outra teoria da ficção e da mimese, a saber, aquela que postula o princípio da invenção. A mimese da arte parte da realidade, é óbvio, mas não a copia tal e qual. Antes, a reinventa, a re-produz, justamente porque suspeita que a realidade não precisa ser assim, ela pode ser “assado”.

Se tudo o que chamamos de realidade é fruto de nossas ficções involuntárias, por que não reinventar conscientemente, de propósito, essa tal de realidade?

 

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