Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 17/08/2017
Ano 11, n. 29, 2018
ISSN 1984-1604

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Colunas

Tetraedro III: Conhecimento

Nílson José Machado

1 – Conhecimento como um valor

Na Grécia Antiga, havia uma separação radical entre os universos do conhecimento e do trabalho. Estudar não significava preparar-se para trabalhar bem. Somente a partir da Revolução Industrial consolida-se a ideia de aplicação do conhecimento ao mundo do trabalho. A Enciclopédia Francesa, considerada o maior empreendimento comercial do século XVIII, é um marco na transformação do conhecimento em algo que se comercializa. Nela se vê, pela primeira vez na história, uma lista de ocupações da época e um elenco de conhecimentos necessários para um bom desempenho. A partir daí, a transformação do conhecimento em mercadoria caminhou celeremente. Com os computadores, a partir da metade do século XX, ocorreu uma plena integração entre o conhecimento e o mundo do trabalho. O principal fator de produção não seria mais a terra, a matéria prima ou a mão de obra, mas sim o conhecimento e seu valor passou a ser tratado como o de uma mercadoria em sentido industrial. Os problemas não tardaram a aparecer.

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2 – Conhecimento como mercadoria

Estranha mercadoria é o conhecimento! Se vendo meu automóvel, o comprador fica com ele e me transfere seu dinheiro; eu fico com o dinheiro e sem o automóvel. Mas se conheço algo e alguém deseja comprar tal conhecimento, posso “vendê-lo” e não ficarei sem ele. Trata-se de um bem que não é fungível, não se gasta: quanto mais usamos, mais novo ele fica. Também não se pode falar de estoque de tal “mercadoria”. Diariamente, a expectativa de escassez ou do excesso de uma commodity , como o petróleo, influencia diretamente seu preço de compra e venda. Mas quem poderia falar de estoque do conhecimento? Quem controlaria tal estoque? Sem dúvida, o conhecimento comporta uma dimensão de mercadoria: pode-se comprar, trocar ou vender um livro ou uma aula. Mas o valor do conhecimento não se esgota em tal dimensão. Quem pensar apenas em termos de valor de uso e valor de troca jamais entenderá, por exemplo, como se dá a relação entre professores e alunos. O conhecimento sempre envolve a dádiva, os laços.

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3 – O mercado e a dádiva

A forma pré-mercantil de circulação de valores é a dádiva, a doação, a troca de presentes, geradora de laços. O mercado foi revolucionário ao seu tempo, quebrando a rigidez das estruturas sociais. Com o dinheiro, se preciso de um produto, vou ao mercado e o compro. Hoje, praticamente tudo transformou-se em mercadoria e a circulação dadivosa não mais existe. Será? A verdade é que, a despeito do mercado, a dádiva está em toda parte. Pode ser uma dádiva corrompida, um laço artificialmente criado, mas o mercado não sobrevive sem laços. Sem comemorações como dia das mães, dia dos pais, dia dos namorados, dia das crianças etc, todas transformadas em pretextos para a troca de presentes, o mercado não sobreviveria. Se é verdade que quase tudo se transformou em mercadoria, também o é que alguns bens como a palavra, o voto e o conhecimento resistem a uma simples conversão. Para destacar tal fato, o bem maior de que dispomos – a vida – todos recebemos dadivosamente, ninguém a comprou no mercado.

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4 – Conhecimento como commons

Em 2009, Elinor Ostrom ganhou o Prêmio Nobel de Economia. Uma ideia norteadora de seu trabalho é a de commons, uma categoria por ela criada para a compreensão da circulação de valores para os quais não bastam as leis do mercado. O cerne da questão é o fato de que existem bens que são essenciais para a preservação da vida e que devem ser partilhados por todos, não podendo ser tratados como meras mercadorias. Sua circulação exigiria normas reguladoras específicas. Commons (sempre no plural) contrapõem-se a commodities. O ar, a água e alguns recursos naturais decisivos para a vida humana são commons. E o conhecimento, na visão de Ostrom, deve situar-se nessa categoria. Ostrom, que faleceu poucos anos após o reconhecimento do valor de seu trabalho (2012), publicou o livro Understanding Knowledge as a commons. Nele, são examinadas formas de circulação do conhecimento como um valor compatíveis com sua inclusão na categoria commons. Coerentemente, o texto (em pdf) está disponibilizado na rede.

 

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