Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 25/07/2024
Ano 12, n. 32, 2019
ISSN 1984-1604

Inicial » Artigos » Série Carreiras: Psicologia

Artigos

Série Carreiras: Psicologia, por Marisa Lopes da Rocha

Ano 9, n. 25, 2016

Autor: Marisa Lopes da Rocha

Sobre o autor: Professora adjunta do Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia, pesquisadora no Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e procientista da UERJ. Bolsista do CNPq, é mestre em Filosofia da Educação pelo IESAE/FGV e doutora em psicologia pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade da PUC/SP.

Publicado em: 07/11/2016

Revista do Vestibular: Grande parte das pessoas imagina que a atividade dos psicólogos se limita a atendimentos em consultórios. Em que outras áreas o psicólogo pode atuar?

Marisa: A Psicologia tem como foco de estudo e de ação a produção de subjetividade, isto quer dizer que, ao psicólogo, interessa iluminar como nos constituímos em meio às relações, às tradições, às instituições sociais e através de que práticas nos valemos para produzir um lugar no mundo. Assim, valores, expectativas, ações, afetos e pensamentos são alvo de nossas pesquisas. O psicólogo como profissional de saúde está atento à cultura, às condições de existência, às circunstâncias de vida que são as forças com as quais os homens constroem o mundo e concomitantemente se constroem. Por saúde, podemos entender a capacidade de, a cada momento, enfrentar imprevistos e dificuldades, usufruindo de nossas habilidades para criar novas situações mais favoráveis à expansão de nossas vidas nos diferentes sentidos. Isso significa que buscar um contato com o psicólogo não quer dizer que estejamos doentes, porém que queremos um espaço para pensar nossas escolhas, estratégias e práticas, analisando o caminho que vimos produzindo. Onde encontrar o psicólogo? Eles hoje estão nas escolas, nas empresas, nos consultórios, nos presídios, nos asilos, nas varas de família, nos departamentos de trânsito, nos órgãos de segurança pública, nos clubes esportivos, ou seja, estão onde a vida pode ser pensada, reavaliada, transformada, expandida individual ou coletivamente.

Revista do Vestibular: A senhora é professora do Instituto de Psicologia da UERJ e realiza pesquisas voltadas para o campo da educação. Fale um pouco sobre sua experiência. O que a levou a essa profissão?

Marisa: Eu me formei entre as primeiras turmas de Psicologia da Uerj na década de 1970 do século passado, e no meu tempo de aluna a universidade não tinha ainda um Serviço de Psicologia Aplicada (SPA), local em que os alunos realizam suas horas de estágio. Dessa forma, cumpríamos nossas horas de prática profissional fora da Uerj. Por um lado, era uma luta conseguir bons locais com supervisão e de pesquisas, por outro, nos obrigava desde muito cedo a construir nossa formação, o que nos possibilitou experimentar diferentes práticas profissionais, áreas de trabalho em situações nem sempre fáceis, ampliando nossas escolhas. Entre os diferentes campos nos quais estagiei, a educação foi o mais instigante e talvez isso se deva ao fato de considerar que a escola tem como questão junto com a família a de facultar à criança a noção de que o mundo começou antes e ainda continuará após sua vida. Isso significa alongar o tempo presente para que cada um possa construir um lugar ativo na sociedade. Como não é uma tarefa fácil, gera tensões, conflitos, exigindo atenção às relações. Venho até hoje trabalhando com professores, jovens, crianças e psicólogos em formação para os desafios das transformações das instituições educacionais, ou seja, dos valores, dos usos do tempo e do espaço, da organização coletiva do trabalho.

Revista do Vestibular: O Instituto de Psicologia da UERJ tem um longo histórico de relacionamento com a comunidade através de suas clínicas. Qual a importância dessa relação para as atividades de ensino, pesquisa e extensão da faculdade? Que atendimentos o Instituto oferece?

Marisa: O Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) é um órgão ligado à direção do Instituto, que conta com professores de psicologia e psicólogos de diferentes formações para desenvolver estágio supervisionado com os alunos através do atendimento à população. Lá contamos com profissionais de linhas diversas de trabalho como psicanalítica, sistêmica, comportamental, psicopedagógica, institucional, organizacional, que pressupõem campos diferenciados de atuação (como visto antes), para faixas etárias que vão da infância à terceira idade em âmbito de práticas individuais, grupais, institucionais. Muitos estágios, entre esses os vinculados a projetos de pesquisa ou de extensão, ocorrem no interior das instalações da Uerj, outros se realizam fora da Uerj. Temos ainda estágios que, embora não sejam supervisionados pelo corpo de supervisores do SPA, são desenvolvidos em locais conveniados e validados pelos profissionais do SPA (alguns destes foram conveniados pela iniciativa de alunos).

Revista do Vestibular: Quais as maiores dificuldades que o jovem graduado em Psicologia vai enfrentar na vida profissional? E quais as maiores alegrias?

Marisa: Eu diria que as dificuldades começam na própria faculdade, durante o curso de formação, em que o aluno precisa ter tempo e interesse em boa dose de leitura. Considerando que a maior ferramenta de um psicólogo é ele próprio, suas descobertas sobre seus modos de funcionar, dificuldades, habilidades, seu conhecimento sobre tensões contemporâneas, questões sociais, além dos saberes ligados à sua área de trabalho, que não para de crescer e se diferenciar, são importantes. Quero dizer que não basta dominar uma técnica, ela tem que compor um território com o outro e em grande medida isso ocorre a partir das lutas de cada um pelo próprio equilíbrio que não é estático, mas uma conquista permanente. Então, de um psicólogo espera-se cultura, crítica, plasticidade, reflexão, práticas de si. A partir dessas questões colocadas, muito das possibilidades de um bom lugar profissional vai depender do que o profissional tem a oferecer, já que a competição é grande. O mercado privado oferece poucas vagas nos diversos setores, temos tido alguns concursos públicos para a área de saúde, educação e justiça, mas todos não muito bem remunerados, talvez nas empresas surjam possibilidades de maiores salários. Os consultórios requerem prudência, pois implicam muitos gastos e a clientela diminuiu muito com a crise econômica. Muitos recém-formados têm preferido a carreira docente, ingressando nos Programas de Pós-Graduação. Em relação às alegrias, acredito que está em lutar por espaço de trabalho e ampliação de conhecimentos do que se gosta, do que escolhemos como modo de expressão de nossos afetos, pensamentos e ações.

Revista do Vestibular: Gostaríamos que a senhora deixasse uma mensagem para os candidatos do Vestibular Estadual que desejam cursar Psicologia.

Marisa: Deixo o que Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, falou no III Fórum Social Mundial em Porto Alegre:
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar
Isso significa: empenho, foco, dedicação para um processo que não está no início e que, mais do que uma carreira de psicólogo, é um desafio constante de invenção de vida que já está em curso.
Boa sorte e sejam bem-vindos!

 

©2008-2024, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Todos os direitos reservados