Revista do Vestibular da Uerj
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Ano 12, n. 32, 2019
ISSN 1984-1604

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Artigos

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, por Guilherme Preger

Ano 11, n. 30, 2018

Autor: Guilherme Preger

Sobre o autor: Guilherme Preger é engenheiro e doutorando em Teoria da Literária e Literatura Comparada da UERJ. É autor dos livros Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Editora Oito e Meio/2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária atuante desde 2007 no Rio de Janeiro. É autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.

Publicado em: 15/03/2018

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, foi publicado em 1995. Pouco tempo depois, em 1998, o escritor se tornou o primeiro português a ganhar o prêmio Nobel. Este se tornou um de seus romances mais conhecidos, merecendo adaptação cinematográfica em 2008, dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles e com elenco internacional. 

A história do romance descreve o inexplicado surgimento de uma estranha epidemia de “cegueira branca”. Os habitantes de uma cidade e de um país nunca definidos são acometidos por uma cegueira que impede totalmente a visão não pela escuridão, mas por um excesso de brancura, como se vissem tudo da “cor do leite”. Inicialmente, um personagem, conhecido como o “primeiro cego”, é acometido de uma súbita cegueira quando estava dirigindo. Ele é ajudado por outro transeunte que o leva em casa, mas lhe rouba o carro. O primeiro cego vai em seguida se consultar com um oculista, que não consegue diagnosticar seu problema. A princípio, parece um problema do sistema nervoso. Em seguida a esse primeiro, outros personagens começam também a cegarem, como numa epidemia de contágio: o transeunte que o ajudou, mas lhe roubou o automóvel, o oculista, alguns de seus clientes, inclusive uma moça de óculos escuros de “hábitos duvidosos”, depois a mulher do primeiro cego e assim por diante. Temendo grande contaminação da população, o Estado decide internar todos os cegos e seus familiares em acomodações do exército, numa quarentena isolada e sem previsão de término. Os cegos são colocados num sanatório improvisado para isolá-los da sociedade e impedir o alastramento da misteriosa doença, que contamina sem fazer alarde e sem explicação clínica.

O sanatório dos cegos torna-se um espaço de confinamento semelhante aos antigos leprosários. Os cegos são retirados do convívio social sem discussão. Monitorados pelo exército, eles não devem ter nenhum contato com o mundo exterior. Três vezes por dia receberão sua alimentação em caixas largadas no interior. Isolados, devem resolver seus próprios problemas, cuidar da higiene e da organização sem nenhuma intervenção externa. Não há, por parte do Estado, nenhuma ação para tentar entender ou resolver o problema. Trata-se do puro e simples confinamento social. Os cegos devem até mesmo enterrar seus mortos, em caso de necessidade. Eles são avisados pelo exército, que guarda o espaço confinado, de que não devem se aproximar demais do portão de saída, sob pena de morte sumária. 

Como diz a segunda lei da termodinâmica, um sistema fechado, sem contato com o mundo exterior, tenderá necessariamente a se desorganizar. A desordem começa a tomar conta do sanatório. As instalações sanitárias logo ficam impraticáveis, pois os cegos fazem suas necessidades em qualquer lugar. O desespero de um dos cegos, o ladrão de automóvel, acometido por uma gangrena nas pernas, após tentar “vantagens” sexuais da moça de óculos escuros, o leva a ser assassinado pelos soldados vigilantes. Seus próprios companheiros de infortúnio têm de enterrá-lo. É o primeiro de muitos enterros da história. 

A quantidade de cegos aumenta gradativamente, povoando excessivamente o local. As condições internas se deterioram e se tornam insuportáveis. Como narrativa romanesca, a história não foca todos os personagens ao mesmo tempo, mas tem seus personagens principais e, em particular, a protagonista, a mulher do oculista, que não é acometida da doença, mas simula cegueira para poder acompanhar o marido. Como ensina o ditado, em terra de cego quem tem vista é realeza, mas a mulher do médico precisa fazer segredo de sua vantagem para que não abusem de sua boa vontade. 

Nessas situações extremas, desaparecem a generosidade e o respeito para dar lugar à barbárie. O grupo dos “cegos malvados” toma conta do ambiente com violência e passa a controlar a entrega das refeições, impondo uma lei marcial e exigindo, em troca de comida, dinheiro e valores alheios. Logo passam também a exigir os corpos das mulheres. A narrativa adquire então feições absolutamente infernais. O sanatório se torna lugar de purgação e desespero. 

A questão que se coloca desde o início é: o que faz os cegos aceitarem seu infortúnio de maneira tão passiva e sem questionamento? A invalidez da cegueira é, com certeza, motivação razoável. Mas a narrativa de Saramago caminhará para situações cada vez mais absurdamente insuportáveis, beirando o inverossímil. O estupro coletivo das mulheres é composto de cenas exasperantes. O leitor se pergunta a cada momento: por que os cegos não se revoltam? Mas este não deveria ser um tipo de questionamento dirigido não apenas a esses personagens, mas também a larga parte da população mundial submetida às condições mais opressivas de existência?

Ensaio sobre a cegueira é um romance do tipo alegórico, estilo bastante comum na obra do escritor português, como no romance A Caverna. A alegoria é uma figura de retórica que vai além do ficcional. A ficção, desde Aristóteles em sua Poética, segue a lógica da mimesis: narra não apenas o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido. Essa lógica é a da verossimilhança e não a da necessidade. Ela exige do leitor aquilo que o poeta inglês Samuel Coleridge chamou de “suspensão da descrença”. Essa suspensão atua no leitor como um ato de “fingir que acredita”, como se a história estivesse narrada no modo do “como se”: o leitor deve agir como se o que estivesse escrito pudesse ter acontecido. No modo alegórico, no entanto, se vai além disso. A alegoria abre um mundo paralelo, que não é apenas um mundo fantástico e irreal, mas um mundo estranhamente parecido com o que vivemos, mas deslocado, com algo diferente e que parece funcionar com outra lógica. 

Uma caracterização mais precisa do estilo do autor é o gênero de “fabulação especulativa” usado para descrever certos tipos de ficção científica e de gêneros de criação de “mundos possíveis”. De fato, a fábula parece ser um gênero de predileção de José Saramago. A fábula é um gênero narrativo com forte conotação moral ou ética e também relacionada com o conhecimento. Fábulas tradicionalmente são modos comunicativos que transmitem aos receptores modelos de cognição ou conhecimento de mundos. E possui uma relação primitiva com o modo oral do relato, pois fábula e fala são termos com as mesmas raízes etimológicas. 

A prosa de Saramago é conhecida pelo caráter fluido comum das vozes de seus narradores, fortemente marcadas pela presença da oralidade. Uma de suas características estilísticas mais frequentes é apresentação de diálogos em modo indireto, sem travessão ou aspas, como um elemento narrativo sem transição. Com essa estratégia narrativa, a fala do narrador e as falas dos personagens se misturam, como se estivessem num mesmo plano. Na teoria da narrativa, esses planos narrativos são denominados de “planos diegéticos”. É comum as narrativas literárias terem diversos planos diegéticos, como se fossem diversos níveis de história. Em Ensaio sobre a cegueira, a voz do narrador, em terceira pessoa, se mistura à dos personagens, como se ele estivesse no mesmo mundo dos cegos. Muitas situações são narradas como se o narrador desconhecido habitasse o mesmo espaço dos outros cegos, como se fosse um deles e estivesse em quarentena e confinado. Mas isso é um paradoxo ficcional pois, se o narrador fosse um dos cegos, não poderia narrar a história, que é contada em termos predominantemente visuais. A não ser que esse narrador se confundisse com a mulher do oculista, a protagonista e única personagem a não perder a visão. Mas esse claramente não é o caso. 

A ideia de que o romance é um tipo de “fabulação especulativa” é reforçada pelo título. De que modo esse romance ficcional é um “ensaio”? Especulativo diz respeito à formulação de hipóteses. Além de ser uma história ficcional, o romance também formula uma pergunta: “e se todos ficassem cegos, menos uma pessoa, o que aconteceria com o mundo?”. A história do romance, a trajetória de um grupo desses cegos no mundo, é uma possível resposta a essa pergunta. O “ensaio” do título corresponde a um experimento da imaginação (também chamado de “experimento mental” ou “thought experiment”), de pensar o que seria um mundo resultante de uma cegueira súbita e sem explicação. 

O ensaio tem uma estrutura aberta, o que indica que há outras possíveis respostas. Mas há também outras perguntas além dessa maior, pois num ensaio uma questão leva frequentemente a outras. Além da passividade desesperadora dos cegos em relação ao seu destino e às condições malignas em que se resignam a existir, há a pergunta mencionada pelo próprio narrador num trecho: “com quantos cegos se faz uma cegueira?”. Esta questão permanece latente em todo o romance e sua resposta, hipotética, tem a forma de um fantasma a assombrar toda a trama: e se todos já não estivessem desde sempre cegos? Afinal, a “enfermidade” visual é atípica: não se trata de qualquer cegueira, na qual o paciente é jogado às trevas, mas de uma “cegueira branca” como se fosse causada por um excesso de luminosidade. Como é sabido, o branco não é a ausência de cores, mas a superposição de todas as cores do espectro. Esta hipótese é sustentada pelo fato de que José Saramago escreveu um romance de “continuação” a esse, cujo título é Ensaio sobre a lucidez (2004), com os mesmos personagens de Ensaio sobre a cegueira. Nesse romance posterior, cuja ação se passa após o período de caos descrito pelo romance de 1995, há uma discussão se os valores democráticos do mundo ficcional, recuperados após a renormalização da situação de cegueira generalizada, não seriam apenas máscaras de um regime autoritário ou mesmo totalitário. Esse regime seria a expressão da vontade de estabelecer a vigilância e a visibilidade absolutas, o que não passaria da expressão de outro tipo de cegueira. 

Há, portanto, a sugestão de que os personagens sempre estiveram cegos e não sabiam. A docilidade com que se entregam às ordens absurdas de um regime totalitário, que dispensa os cegos de todo direito humano, deixando-os à mais desesperada revelia, já seria uma cegueira social, uma enfermidade da sociedade. Por diversos momentos os cegos se perguntam por que não conseguem se organizar para lutar por seus direitos: “organizando-se, organizar-se já é, de uma certa maneira, começar a ter olhos”, diz o narrador a certa altura do texto. 

A revolta violenta que explode após o estrupo coletivo das mulheres é o passo decisivo no sentido da libertação. Essa revolta é disparada por um ato violento da protagonista, cuja visão era mais do que física, era uma visão da sabedoria e de compromisso. A revolta coloca em risco a vida de alguns cegos, mas ela é o meio que lhes permite romper o círculo vicioso causado pelo reforço mútuo entre a apatia dos cegos e a opressão do regime totalitário. Esse reforço era facilitado pelo medo, mas também pelo estupor e pelo desconhecimento. 

Como ensaio alegórico, José Saramago escreve seu romance como aliança entre a imaginação e o conhecimento. Não se trata de pensar na ficção como a construção de um “outro mundo possível” paralelo ao de nosso cotidiano. É preciso pensar nas intersecções entre mundos. O mundo cotidiano e histórico, que compõe a chamada “realidade”, é também resultado de construções ficcionais e visões contraditórias. É a vez de o leitor se questionar se realmente conhece seu mundo. É preciso questionar as cegueiras que nos impedem de ver aquilo que acontece nas circunstâncias de cada vizinhança. É preciso imaginar se a cegueira de que fala Saramago talvez não seja afinal tão alegórica assim. 

 

 

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