Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 24/05/2024
Ano 12, n. 32, 2019
ISSN 1984-1604

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Artigos

Competências e habilidades cognitivas: como executar essas operações na construção das respostas do exame discursivo., por Fábio André Coelho e Janine Maria Silva

Ano 12, n. 32, 2019

Autor: Fábio André Coelho e Janine Maria Silva

Sobre o autor: Fábio André Coelho é doutor em Língua Portuguesa, pela Universidade do Estado Rio de Janeiro (UERJ), e mestre em Literatura Portuguesa pela mesma Universidade. Professor Adjunto de Língua Portuguesa, do Instituto de Letras, da Universidade Federal Fluminense (UFF), desenvolve pesquisas com ênfase nos seguintes temas: língua portuguesa, estilística, leitura, produção textual, metodologia de ensino de língua e literaturas, prática de ensino de língua e literaturas e linguística. Janine Maria Silva é doutora em Estudos de Linguagem, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e mestra também em Estudos de Linguagem pela mesma Universidade. Atualmente, é professora da Prefeitura Municipal de Miguel Pereira, onde exerce também a função de vice-presidente do Conselho Municipal de Educação e professora da Prefeitura Municipal da Cidade do Rio de Janeiro.

Publicado em: 04/12/2019

À luz de concepções recentes, as avaliações de acesso ao ensino superior, como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e os vestibulares das universidades estaduais, como a UERJ, têm chamado a atenção para uma capacidade humana apontada como fundamental à vida acadêmica, social e profissional do futuro estudante universitário: as habilidades cognitivas. Talvez não tenhamos notado, mas muitas de nossas atividades cotidianas, como ler, escrever, planejar, argumentar, avaliar, abarcam competências e habilidades mentais. No entanto, há ainda outras capacidades que são aprendidas e estimuladas durante nossa vida escolar, no contato com os livros, com o outro, com o mundo físico e social. Elas são consideradas essenciais pelos avaliadores dos exames, pois nos ajudam a compreender fenômenos, a enfrentar e resolver situações-problemas, a tomar decisões, analisar e interpretar dados, informações, textos escritos e imagéticos, organizar ideias, elaborar propostas, enfim, tudo aquilo que é esperado no processo de construção do conhecimento da formação média.

É importante lembrar que, para os organizadores dos vestibulares, explicitamente, não interessa mais, como antes, quantificar a capacidade de memorizar os conteúdos para solucionar os problemas propostos. Para a banca examinadora dos concursos, hoje, o importante é uma educação voltada para o desenvolvimento do raciocínio, capaz de preparar o estudante para a vida, para o exercício da cidadania e para o aprendizado permanente. Além disso, em linhas gerais, espera-se que o vestibulando, ao longo dos 12 anos da Educação Básica, esteja apto a ler e a compreender um texto (seja qual for o gênero), um enunciado, uma questão e a escrever um texto inteligível (coeso, coerente e claro), adequado a uma situação específica real de uso que corresponda à modalidade escrita formal da língua.

Em suma, o vestibular da UERJ é um concurso de mensuração de inteligência abstrata, isto é, os produtores deste exame desejam medir, do candidato, as operações mentais do pensamento, como criar, avaliar, analisar, interpretar, observar, interpretar, ter ideias sobre os fatos do mundo e relacioná-las entre si, comprovando-as ou refutando-as, mostrando, assim, que são capazes de transcender a aparente fragmentação dos acontecimentos e de ligar esse aparentemente disperso em totalidades significativas.

Algumas questões práticas de análise dos enunciados de questões discursivas

Ao se verificar o conteúdo programático das provas de acesso ao vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apontam-se habilidades e competências cognoscitivas (identificar, indicar, reconhecer, nomear, apontar, justificar, calcular...) usadas para aprender, compreender e integrar as informações de forma significativa. Nos anos de nossa experiência em sala de aula, atuando como professores da educação básica, pudemos detectar as dificuldades que os alunos têm em corresponder ao que se pede nas questões discursivas. A partir daí, nasce este material, fruto da tentativa de levar o alunado a entender e a assimilar os comandos exigidos nos enunciados das provas, já que as respostas esperadas e precisas deverão atendê-lo.

Muitas podem ser as solicitações presentes nos enunciados (exercícios, perguntas, provas, testes, etc.) de análise dos textos (qualquer gênero) e imagens. As mais comuns podem ser identificadas através dos verbos a seguir:

• Identificar: é ter a capacidade de reconhecer, de encontrar um elemento entre outros.

• Apontar: assinalar, direcionar para aquilo que se quer chamar atenção. Indicar mostrando. Geralmente, aparece em enunciados que pedem exemplos a serem retirados do texto.

• Nomear: significa citar o nome de; dar nome a; denominar. Uma das funções da linguagem, cujo papel é fundamental, é a nomeação, já que ela representa os objetos, os seres, os processos e os fenômenos. Nomear ou designar algo denotam separar algum elemento para lhe dar destaque. Tomemos como exemplo uma questão da prova de Biologia do ano de 2017, do vestibular estadual:

• “Segundo estudos, a evolução de todos os eucariotos é o resultado da incorporação, em um passado remoto, de bactérias aeróbias de vida livre no interior de uma célula, em uma associação vantajosa para ambas. Essas bactérias originaram organelas celulares denominadas mitocôndrias”.

• Nomeie a teoria evolutiva que explica a formação da célula eucariótica por esse processo. Nomeie, também, a relação ecológica estabelecida entre as bactérias e a célula.

• A questão solicita os mesmos comandos. Para responder ao primeiro, o candidato deverá denominar qual a teoria pedida. Em seguida, deverá dar o nome da relação estabelecida entre as espécies diferentes.

• Relacionar/ Comparar: é estabelecer os pontos comuns e/ou diferentes entre dois elementos do texto ou entre elementos do texto e da realidade (do autor, do leitor, etc.). É arrolar as peculiaridades de dois ou mais objetos, fenômenos ou processos. A comparação é uma excelente habilidade para apreensão das características fundamentais do processo, do objeto ou do ser, de modo a distinguir as suas diferenças e semelhanças.

Tomemos como exemplo o edital 2019 do programa da prova de História do exame discursivo da UERJ. Nele, constam os seguintes conteúdos: [...] comparação entre processos de independência afro-asiáticos; pan-africanismo, neocolonialismo e soberania nacional; industrialização e desenvolvimento na América Latina [...]. Para atender a essa questão, pensemos: que relações existem entre a descolonização na Ásia e na África? Ou quais as diferenças e semelhanças do processo de independência desses dois continentes? Uma dica: ao responder, você poderá começar com as diferenças, depois com as semelhanças. Desta forma, você fugirá do senso comum e deslocará o foco da argumentação para os pontos dissonantes, de forma a persuadir o leitor.

• Correlacionar: é estabelecer uma relação, uma analogia, uma semelhança entre. Relação mútua entre dois termos, por exemplo. É a capacidade que nos permite assimilar conhecimentos de forma mais rápida.

• Estimar: significa calcular, fazer o cálculo do valor ou da quantidade de, avaliar. Pode-se estimar a velocidade, a distância, o percurso ou o tempo gasto. Esse é um processo mental especificamente exigido nas provas da área de exatas, sobretudo, na Física e que nos permite prever ou criar uma resposta. Tomemos como exemplo uma questão da prova de Física do ano de 2019, do vestibular estadual:

“Uma estudante, para chegar à UERJ, embarca no metrô na estação São Cristóvão. Ao sair dessa estação, a composição acelera uniformemente até atingir a velocidade de 22 m/s e, após ter atingido essa velocidade, percorre 1200 m em movimento uniforme. A partir daí, desacelera uniformemente até parar na estação seguinte, Maracanã”.

Estime, em metros, a distância total percorrida pela composição entre as duas estações.

Nesse tipo de questão, uma particularidade do vestibular atual, sobretudo da UERJ, é notória a passagem de princípios gerais (a forma geral de resolver problemas da disciplina) para a sua aplicação à situação real de uso. Percebe-se que o objetivo da questão é conseguir com que o alunado adquira uma capacidade mental para lidar com os conceitos e aplicá-los a situações de sua realidade, além do enfrentamento dos desafios hoje postos pela sociedade.

• Comentar: significa discutir acerca de. É, geralmente, tecer comentários (observações) gerais sobre o conteúdo do texto, o que supõe uma leitura atenta. Comente empregando palavras próprias e demonstrando seu conhecimento sobre o assunto construído ao longo de sua vida escolar.

• Interpretar: pode significar comentar ou analisar, dependendo do contexto. É o processo da escolha de informações, fatos, opiniões e argumentos a fim de se posicionar criticamente. De qualquer forma, é uma tarefa que deve se ater aos limites do texto, evitando-se, sempre que possível, misturar as afirmações do texto com aquilo que achamos. Segundo alguns autores, interpretar consiste em saber o que se infere (conclui) do que está escrito. Nesse caso, o enunciado normalmente é encontrado da seguinte maneira:

O texto possibilita o entendimento de que...

Com apoio do texto, infere-se que...

O texto encaminha o leitor para...

Pretende o texto mostrar que o leitor...

O texto possibilita deduzir-se que...

• Diferenciar: estabelecer, perceber diferença ou distinção entre seres ou objetos; distinguir. Mostrar o que não é igual.

• Organizar: é hierarquizar informações, fatos, opiniões, após selecioná-los, observando o grau de importância de cada um. É importante começar sempre pelos elementos mais importantes, para, em seguida, elencar os elementos complementares ou secundários. Essa poderá ser a maneira mais estratégica de apresentá-los, sem se perder nas ideias.

• Classificar: é a ação de agrupar, organizar em categorias de acordo com o pertencimento a um grupo ou classe. A classificação reitera a ideia de que o desenvolvimento das habilidades contribui para que o aluno tenha o domínio do todo e das partes, para que se determine a interdependência entre elas.

• Analisar: é separar as partes, compará-las e tirar conclusões lógicas, coerentes com o texto. É a capacidade de decompor o todo em suas partes constitutivas, entendendo a inter-relação existente entre elas (as partes).

• Avaliar: é posicionar-se criticamente frente ao texto ou a algum aspecto dele; é emitir um juízo de valor a respeito das ideias essenciais de um texto, desde que comprovadas com argumentos lógicos ou com passagens do texto. Esse juízo pode ser baseado em critérios quantitativos ou qualitativos.

• Explicitar: tornar explícito, claro, evidente; que não dá margens a interpretações extensivas nem ambíguas. Tomemos como exemplo uma questão da prova de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do ano de 2017, do vestibular estadual:

• Natividade, que em tudo via a inimizade dos gêmeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente comprometer Paulo. Olhou para ele a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho tinha então o aspecto do entusiasmo. Pedro lia trechos do discurso, acentuando as belezas, repetindo as frases mais novas, cantando as mais redondas, revolvendo-as na boca, tudo com tão boa sombra que a mãe perdeu a suspeita, e a impressão do discurso foi resolvida”.

• Nesse trecho, observa-se que Pedro, mesmo com posição política contrária à de Paulo, lê com entusiasmo o discurso do irmão, trocando de lugar com ele. Essa troca de papéis sugere uma crítica acerca da política daquela época. Explicite essa crítica. Aponte, ainda, a relação de sentido que a oração sublinhada estabelece com a anterior.

No primeiro comando da questão, o candidato deve tornar claro qual a crítica sugerida sobre o sistema de governo da época em que se passa o texto. Em seguida, há outro comando a ser respondido: a habilidade mental de apontar. Nesse caso, as orações subordinadas adverbiais podem estabelecer diversas relações de sentido (causa, consequência, tempo, condição, concessão, etc.). Sua tarefa será indicar qual, dentre várias, é a relação estabelecida.

• Justificar: é demonstrar, provar. Apresentar motivos, razões, explicações.

• Citar: mencionar como prova, fazer referência a. Apontar, reportar-se a um texto ou às palavras de alguém como apoio ao que se diz. Por exemplo:

ENUNCIADO: Cite as causas principais do efeito-estufa.

RESPOSTA: As principais causas do efeito-estufa são: ..... /Os maiores causadores do efeito-estufa são ..... Esse fenômeno é causado principalmente por .....

Como citar: nem sempre é necessário citar o texto que se analisa para responder a uma questão sobre ele, pode-se e até se deve traduzir (paráfrase), com linguagem pessoal e com máximo de fidelidade, as ideias ou conteúdos do texto contidos na versão original. Mas há casos em que é necessário citar, ou porque isso foi solicitado (com comandos do tipo retire do texto, transcreva, justifique sua resposta...), ou porque se quer provar com as palavras do texto uma opinião a respeito de uma questão polêmica suscitada pela leitura, por exemplo. Assim, para citar, devemos proceder da seguinte maneira: sempre que for citar o texto integralmente ou parte dele, usar aspas.

Cabe ressaltar aqui que a citação é uma estratégia argumentativa valiosa que serve para fundamentar um ponto de vista, produzindo no texto um efeito de autenticidade; funciona como um argumento de autoridade, um elemento de prova. Entretanto, ela só é válida e produtiva se estiver vinculada à discussão levantada pela banca ou pelo candidato.

Considerações finais

Levando-se em conta o que foi dito ao longo deste artigo, fomos em busca de itens que dissessem respeito, em sua maioria, às habilidades envolvidas com a linguagem, o que não significa que nos ativemos só aos conteúdos de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Um item, por exemplo, pode abordar temas de História, mas requerer também a capacidade de interpretar, nomear, citar, diferenciar, etc. Portanto, o candidato deverá obedecer aos comandos das diversas provas, ou seja, não só na área de linguagens, mas também em Matemática, Física, História, Biologia, etc. Diante dessas situações, o futuro estudante universitário se vê desafiado a mobilizar um conjunto de habilidades e saberes para dar conta, de forma eficiente, das respostas ou soluções.

REFERÊNCIAS

BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Lucerna, 2002.

FAULSTICH, Enilde L. de J.  Como ler, entender e redigir um texto. RJ: Vozes, 2009.

GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo, Ática, 2004. (Série Princípios)

HOUAISS, Antonio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 4. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

MEYER, Bernard. A arte de argumentar. Tradução Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

SANTOS, Leonor Werneck dos; CUBA RICHE, Rosa; TEIXEIRA, Claudia de S. Análise e produção de textos. São Paulo: Contexto, 2013.

 

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