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Helena Leal David


Helena Maria Scherlowski Leal David é graduada em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Católica de Petrópolis (1982), mestre e doutora em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (1995 e 2001) e pós-doutora na área de pesquisa sobre drogas pela University of Alberta, Canadá. Professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, atualmente, é diretora da Faculdade Enfermagem.

Drogas: uma nova questão?

Ano 4, n. 12, 2011

No dia 26 de junho, comemora-se o Dia Mundial de Combate às Drogas. É uma data que suscita entrevistas, matérias jornalísticas, editoriais e informativos sobre esse assunto, que sempre mobiliza a opinião coletiva. Trata-se de tema complexo e, para ser adequadamente tratado, exige conhecimentos diversos, como os processos históricos e culturais em que se dá o uso de drogas, os aspectos jurídicos e legais envolvidos, os efeitos neuroquímicos e as consequências dos usos, em seus diversos padrões, sobre a saúde, os impactos econômicos da comercialização e do tráfico, entre outros.

Com frequência, vemos pessoas afirmando que se devem combater todas as drogas, eliminando totalmente seu uso dentro da sociedade. É preciso avançar no debate, a partir de algumas perguntas: de que drogas estamos falando? É possível se pensar em uma sociedade na qual não exista uso algum, de droga alguma? Não estiveram as drogas, de alguma forma, sempre relacionadas à historia da humanidade?

Antes de mais nada, é preciso dizer que não é nosso objetivo defender posição a respeito da legalização ou da liberação dessa ou daquela substância, mas apenas levantar questões sobre o quanto ainda se sabe pouco sobre o tema. E o que sabemos, nem sempre é amplamente divulgado.

Por exemplo, há uma tendência a se pensar que as drogas são um problema recente na história da humanidade, o que não é verdade. Registros originados na Antiguidade Clássica evidenciam que o abuso de álcool já era uma preocupação por parte dos governantes, que proibiam o consumo de vinho por mulheres e limitavam seu uso pelos escravos.

Tratar uma droga como lícita (uso legalmente permitido, ainda que regulado) ou ilícita (uso legalmente proibido) também é um comportamento social que mudou ao longo dos anos. A cocaína, derivada do princípio ativo contido na folha da coca, não era proibida no Brasil e podia ser adquirida em farmácias, para tratamento de dor de dentes e de depressão. A maconha, introduzida pelos escravos, também teve durante um período seu uso estimulado pelos médicos. Foi por volta da década de 1930 que essas drogas passaram a ter seu uso proibido e criminalizado no Brasil. O álcool, como se sabe, também teve sua produção, comercialização e uso proibido em países como os Estados Unidos, no período conhecido como Lei Seca. Isso significa que a forma como uma droga é vista e tratada em uma sociedade muda com o tempo e o contexto político e cultural de cada época.

Hoje, os estudos sobre a frequência e os padrões de uso de drogas no Brasil são unânimes em apontar que a droga mais consumida é o álcool, uma substância lícita. No entanto, não se vê tanto temor, por parte das pessoas, em relação à bebida como se vê em relação a drogas como a maconha. O mesmo se pode dizer de drogas lícitas como remédios para emagrecer, ou medicamentos tranquilizantes, cujo uso aumentou significativamente nos últimos anos, e que não parecem preocupar tanto a sociedade como as drogas ilícitas.

A que conclusão se chega? A informação e o debate são, certamente, a melhor maneira de lidar com a questão das drogas. Cada substância possui uma história de uso pelas pessoas, uma ação específica sobre a consciência, um modo social de uso, e é preciso ampliar o conhecimento geral sobre essas questões, desmistificando conceitos errôneos, sem preconceitos em relação às pessoas que utilizam drogas, com oferta, pelo sistema de saúde, de atendimento por profissionais qualificados, de forma respeitosa e responsável. E cobrar, como cidadãos, que este debate se dê de forma ampla e possa incluir todos os segmentos socais na definição das estratégias possíveis para lidar com as situações de danos à saúde causadas pelas drogas.

Para saber mais, acesse o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas: www.cebrid.epm.br

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ISSN 1984-1604

Ano 6, n. 18, 2013

Rio de Janeiro, 24/04/2014

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